O cavalheirismo e suas insuspeitas origens medievais

Matthew Vaughn é um bom diretor. Gosto do seu trabalho. Produziu dois filmes de Guy Ritchie dos quais gosto muito — “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (Lock, Stock and Two Smoking Barrels) e “Snatch: Porcos e Diamantes” (Snatch.) –, e fez um trabalho excepcional no seu primeiro filme, “Nem Tudo É O Que Parece” (Layer Cake). Adaptou alguns quadrinhos para o cinema: Kick-Ass, X-Men e, com grande licença poética, The Secret Service. Bom, falar de licença poética no último caso é puro eufemismo, pois a história foi bastante reformulada, o que a deixou bem melhor.

“Kingsman: Serviço Secreto” (Kingsman: The Secret Service) é um filme muito divertido. Não me arrependi de ter visto no cinema, na época. Valeu o ingresso. Tem tudo o que você espera encontrar num filme de Vaughn: periferia de Londres, sotaque cockney, ritmo forte e muita violência. Ter visto Colin Firth chutando algumas bundas foi ótimo, para dizer o mínimo, e ver atores do calibre de Michael Caine, Samuel L. Jackson e Mark Strong trabalhando juntos é um atrativo a mais.

Juntar todas essas coisas foi um sucesso: o filme rendeu aproximadamente US$ 415 milhões. Muita gente achou o filme legalzinho; muita gente reclamou da violência (o massacre na igreja, sobretudo). Mas o filme tem um mérito que, acho, pouca gente percebeu.

A Conduta Faz o Homem - Colin Firth e o massacre na igreja

A agência internacional de espionagem Kingsman foi criada com base nas lendas arturianas, com direito a Merlim e tudo mais. O personagem de Firth, Harry Hart, atende pelo codinome de Galahad. Para Eggsy, seu recruta, Galahad enfatiza sempre que todo agente Kingsman deve ser um cavalheiro, e que ser um cavalheiro significa ser um cavaleiro moderno. Dentro da narrativa do filme, isso é interessante e se encaixa muito bem, mas associar o cavalheirismo moderno ao código de cavalaria medieval não parece ser uma coisa séria no mundo real.

Acontece que Vaughn está mais certo do que você pensa.

Podemos começar a averiguar isso dirigindo nossa atenção para as letras. Na língua portuguesa, a palavra “cavalheiro” vem do castelhano antigo “cavallero”, que, por sua vez, veio do latim vulgar “caballarius” (cavaleiro). Na língua inglesa, “cavalheiro” é “gentleman” — que poderia se traduzir por “gentil-homem”, um termo que designava os cavaleiros mais próximos do rei –, e “cavalheirismo”, “chivalry” — que vem do francês “chevalerie”, que significa, literalmente, cavalaria. Essas associações etimológicas não são fruto do acaso, nem mera curiosidade lingüística, mas um indício forte rumo à tese apresentada no filme.

 

Godofredo de Bulhões

A Conduta Faz o Homem - GodofredoDesde o Império Romano, um membro da cavalaria devia ter algumas características essenciais: pertencer à nobreza, ser um guerreiro de valor e agir em conformidade com o decoro e a honra que se esperavam de um nobre (elemento mais ideal e, às vezes, ilusório dos três). A cavalaria voltou a ter importância para o Ocidente durante o império de Carlos Magno, e a idéia de vocação para a cavalaria nasceu num dos lugares mais importantes da civilização ocidental: a Abadia de Cluny.

Entre os anos 909 e 920, o abade Odo de Cluny escreveu a obra “Vida de São Geraldo de Aurillac”, onde defende a vocação de cavaleiro como algo excepcional e sobrenatural. Essa idéia se desenvolveu ao longo dos anos até atingir seu clímax durante a era das Cruzadas, e, ainda que fosse um ideal ao qual devessem aspirar os cavaleiros, não foi apenas um delírio romântico.

Homens como Godofredo de Bulhões, William Marshal e São Luís IX, rei da França, foram exemplos da materialização do código de honra da cavalaria medieval.

O processo de transformação do código de cavalaria no cavalheirismo moderno passou por muitas etapas que não convêm abordar, já que a explicação para isso daria um tratado considerável. Basta dizer que o ideal do espírito de cavalaria se foi perdendo aspectos fundamentais: com o Iluminismo, a piedade religiosa foi descartada; com doutrinas como o racionalismo e o utilitarismo, o cultivo de virtudes passou a ser visto como uma afetação de outros tempos.

Hoje, a compreensão que se tem de cavalheirismo se restringe, basicamente, a um comportamento especial com relação às mulheres.

Além da compreensão capenga que se tem de cavalheirismo, esse ideal de comportamento masculino causa uma aversão incrível a muita gente. O feminismo fez o seu papel em pintar qualquer atitude cavalheiresca do homem como uma manifestação de dominação patriarcal e falocrática (seja lá o que isso signifique) sobre a mulher.

Não bastasse isso, o cavalheirismo agora é atacado também por homens: tem se tornado cada vez mais aceita no âmbito masculino a idéia de que as maneiras de um cavalheiro são sinal de fraqueza e submissão aos caprichos da mulher, coisas das quais o homem deve se livrar para se tornar um “macho-alfa”. Se você ousar cometer o pecado de, por exemplo, ceder seu lugar no ônibus para uma mulher, você corre um duplo risco — ser chamado de machista ou de frouxo.

A Conduta Faz o Homem - Colin Firth

As relações construídas por Vaughn em seu filme, ainda que acessórias, não são fruto do acaso, mesmo que não tenham sido pensadas minuciosamente pelo diretor. Mas vê-se no comportamento de Galahad um ideal de valentia e nobreza que encontra paralelos em obras que vão desde o ciclo arturiano, como “A Demanda do Graal” e “A Morte de Artur”, até o oitocentista “Ivanhoe”, de Sir Walter Scott.

Em meio a uma intriga bizarra de alcance internacional, milhares de balas e alguns litros de sangue, é possível enxergar um breve lembrete de onde está a fonte do verdadeiro cavalheirismo.

Fonte: https://medium.com/@felipeoamelo/a-conduta-faz-o-homem-e3f137cca861
Source: https://medium.com/@felipeoamelo/a-conduta-faz-o-homem-e3f137cca861